Na primavera de 2016, um movimento inesperado (2): Nuit Debout (“De pé à noite”) em Paris

Na primavera de 2016, um movimento inesperado (2): Nuit Debout (“De pé à noite”) em Paris

em 1 set

Apesar do mau tempo, apesar do assédio policial, apesar das tensões provocadas por alguns incidentes violentos no meio da noite, apesar de toda a energia requerida para garantir a “logística” diária, eles mantiveram a convicção da importância de seu movimento por três meses e meio. Por Nicole Thé e G. Soriano

Este texto foi escrito em várias partes, à medida que o movimento se desdobrava, a pedido de camaradas de fora da França, e inclui elementos de informação e reflexão que foram-lhe sendo gradualmente adicionados. Isto explica suas repetições, redundâncias e contradições. Assim que pudermos, tentaremos escrever outro artigo de síntese para desenhar um balanço mais detalhado deste movimento. Os autores. 28/06/16

nuit_debout92876Um evento inédito ocorreu depois da manifestação de 31 de março: na agência sindical de empregos de Paris, onde o filme Merci Patron! (“Obrigado, patrão!”) estava sendo exibido, um grupo de manifestantes, liderado por François Ruffin, diretor do filme e editor da revista bimestral Fakir (ver aqui), propôs ficar na Praça da República para continuar o debate: Nuit Debout (“De pé à noite”) havia nascido.

Se considerarmos a capacidade do movimento de mobilizar toda a sociedade, ele parecia muito limitado desde seu início. Mas se analisarmos sua dinâmica interna, ele nos mostra um quadro bem diferente.

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Ele difere de outros “movimentos de ocupação de praças” pelas circunstâncias de seu nascimento, diretamente ligadas ao movimento contra a “lei do trabalho”. Originalmente, ele foi concebido por poucas dúzias de jovens que foram formados nas mobilizações “cidadanistas” dos últimos anos (movimento dos desobedientes, “ação climática” em torno da COP 21). Eles decidiram que a ocupação deveria continuar depois da primeira noite na praça, e encontraram os meios necessários para alcançar seu objetivo, implementar seus métodos e defender seus valores a cada noite.

Estes métodos, herdados em grande parte dos movimentos antiglobalização, funcionaram relativamente bem. Era possível observar certa dicotomia entre “curiosos” (fossem eles oradores ou simples audiência passiva) e organizadores mobilizados quase que 24 horas por dia. As várias “comissões” formadas desde o início (“hospitalidade”, “logística”, “serenidade”, “primeiros socorros”, “cafeteria” etc.) reproduziram, com o passar do tempo, uma “especialização” de tarefas e uma divisão entre aqueles que pertenciam ao movimento e aqueles que usavam seus serviços. As comissões deram sinais de exaustão no final de junho, fator que influenciou muito o destino do movimento.

Nos debates, alguns princípios, também muito próprios a esta geração, foram adotados imediatamente:

– Liberdade de expressão para todos, em bases iguais. Na prática, em cada reunião havia uma sucessão de intervenções curtas, sem hierarquia ou estrutura, produzindo certa confusão e, às vezes, dando espaço para grande descarga emocional.

– Grupos políticos não falavam enquanto tais; militantes organizados podiam se expressar, mas apenas como cidadãos comuns.

Todavia, algumas mudanças surgiram com o passar das semanas:

– Da segunda semana em diante, comissões foram formadas para promover debates e tomar iniciativas, mas elas rapidamente replicaram a tradicional segmentação de questões e demandas (ecologia, feminismo, antiespecismo, anticolonialismo, educação popular etc.). No interior destas comissões, os militantes pertencentes aos agrupamentos tradicionais tiveram peso significante, pois já eram ativos quanto às questões em pauta.

– Rapidamente, algumas comissões deram início à organização de discussões temáticas nas margens da “assembleia geral”. Este processo muito extenso, que não teve sucesso, refletiu um desejo comum de praticar a democracia direta, mas que foi rapidamente focado em questões formais, independentemente de seu conteúdo. Muitos dos participantes se recusavam a estabelecer um sistema de mandatos baseados em metas precisas e específicas. Por outro lado, o chamado por uma nova Assembleia Constituinte encontrou algum eco na praça, confirmando que a democracia era percebida, primeiramente, como uma questão de método, e não como produto de uma luta coletiva.

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A ligação original com a luta contra a Lei El-Khomri, todavia, permitiu a manutenção de relações importantes com lutas de trabalhadores:

nuit2A ideia de uma “greve geral” foi discutida muitas vezes, e se tornou o objeto de uma comissão especial que atraiu militantes sindicais de base decididos a dar apoio a ligações entre diferentes ramos industriais para compelir a burocracia sindical a chamar uma greve geral por tempo indeterminado. Estes sindicalistas de base já haviam dado apoio à petição puxada por Caroline de Haas[1] (1,3 milhão de assinaturas), e em 22 de março puxaram a palavra de ordem “vamos parar tudo”; eles provocaram debates quentes no Congresso da CGT de meados de abril, que apenas decidiu por novos “dias de ação”.

Estes sindicalistas também facilitaram a que o Intercâmbio Trabalhista (sob as asas da CGT de Paris) desse as boas-vindas a reuniões de grupos de ação; manifestações contra a repressão estatal; e encontros entre sindicalistas, trabalhadores comuns, manifestantes e “nuit-deboutistas”.

Depois da manifestação de 28 de abril, esta comissão conseguiu realizar uma “assembleia geral” na Praça da República, tendo como pauta a greve geral. Ela atraiu muitas pessoas, e deu vez a que sindicalistas de base em luta (taxistas, ferroviários e trabalhadores dos correios), assim como membros de sindicatos filiados às duas CNT[2], puxassem greves rápidas e organizassem assembleias diárias em seus locais de trabalho. Secretários-gerais da CGT e dos SUD (Solidaires) também falaram à multidão, mas não assumiram qualquer compromisso concreto. A mesma lógica que levou o movimento contra a reforma previdenciária em 2010 ao fracasso reproduziu-se aqui, mas, desta vez, tudo aconteceu na Praça da República, não nas salas fechadas das agências sindicais de emprego. O voluntarismo militante viu-se diante não apenas da inércia da burocracia sindical – que viu as mobilizações apenas como elemento adicional num processo de negociação em torno de um quadro político estabelecido – mas também diante da passividade da maioria dos assalariados, enclausurados em seus locais de trabalho, lá onde sindicato algum buscava mobilizá-los localmente contra suas próprias dificuldades ou apresentar boas razões para se oporem ao poder das empresas.

A “convergência de lutas”[3] esteve, desde cedo, muito presente nas falas, e foi também objeto de uma comissão específica. Mas, ao invés de uma convergência real que pudesse mudar a correlação de forças, o que se podia perceber era um intenso desejo de concretizar uma forte unidade e apoiar concretamente aqueles em luta: em outras palavras, a convergência era um forte fenômeno ideológico que, às vezes, conseguia ser concretizado. Alguns exemplos: o apoio mútuo prestado a trabalhadores ocasionais da indústria do entretenimento em várias ações, especialmente na ocupação dos teatros Odeon e Comédie-Française; a união com a manifestação dos ferroviários na estação Saint-Lazaire em abril; o bloqueio, por algumas horas, de algumas lojas do Mcdonald’s cujos trabalhadores estivessem em greve; a presença física de “nuit-deboutistas” em solidariedade a migrantes expulsos por policiais de acampamentos ou ocupações de prédios vazios; e, quando as lutas se espraiaram, o apoio (às vezes massivo) aos piquetes em Paris, especialmente nas usinas de tratamento de lixo e nas refinarias nos arredores de Paris.

Muito agitada em 2010 durante o movimento contra a reforma previdenciária, a ideia do “bloqueio dos fluxos” foi debatida vez ou outra, na medida em que seus apoiadores defendiam que, num contexto de aumento da precarização dos trabalhadores, ela poderia substituir a greve geral e obter sucesso na paralisação da economia. Este conceito não passou do estágio de uma ideia para agitação e propaganda.

Em maio, as duas tentativas de bloquear o porto fluvial de Gennevilliers foram rapidamente neutralizadas por policiais, e o bloqueio de uma loja de departamentos no subúrbio por algumas horas teve efeito necessariamente limitado, dada a falta de ligações com os trabalhadores da própria loja. Os bloqueios, em seguida, se espalharam ao se unir com as greves (em estradas e pontes, nos portões de portos e refinarias), mas a rápida intervenção policial reduziu seu impacto econômico a quase nada. A importância destas ações esteve mais no fato de que provocaram reagrupamentos transversais e deslancharam ações comuns.

Da segunda semana em diante, sindicalistas dos setores em luta contra a nova lei trabalhista vieram à Praça da República para organizar debates sobre temas específicos ligados às suas pautas (ativistas dos SUD da Saúde e do Serviço Social bolaram os setores chamados “hospitais de pé”; o “grupo dos 37” bolou o “psiquiatria de pé”). Mas estas iniciativas não duraram muito – provavelmente porque a desejada coordenação não poderia emergir num ambiente que se parecia muito mais com um playground que com um palco para debates sérios. Alguns professores, entretanto, que há muito tempo estavam em luta contra a última reforma educacional, se fizeram presentes como indivíduos, especialmente na comissão de educação. Não houve discussões específicas sobre a condição estudantil. Membros das entidades representativas secundaristas e universitárias falaram nas assembleias gerais, mas já se organizavam fora da Praça da República.

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nuit4A luta contra o estado de emergência se confundiu e se misturou com a luta contra a violência policial. Esta violência começou com as mobilizações secundaristas e piorou bastante logo depois das manifestações de 28 de abril e 1º de maio. A partir do final de abril, o governo aparentou ter decidido apostar na exaustão do movimento Nuit Debout, pois tentou desencorajar outras pessoas de se manifestar, temendo a união entre os jovens “nuit-deboutistas” e trabalhadores mais velhos durante estas manifestações.

Na Praça da República, o assédio policial transformou-se num procedimento diário: depois de impor a desmontagem das estruturas durante a madrugada (oficialmente, para limpar a praça), as autoridades municipais de Paris proibiram a venda de bebidas (nos primeiros dias, a polícia encorajou vendedores ambulantes a ocupar a praça); em seguida, proibiram qualquer marcha na praça, permitiram o uso de som apenas até a meia-noite, e finalmente até as 22h. Todas estas decisões criaram múltiplas oportunidades para os policiais controlarem e revistarem pessoas nos caminhos de acesso à praça e nas saídas do metrô, e a assediar todos os visitantes do evento Nuit Debout.

Confrontos físicos com a polícia (que ocorreram em todas as manifestações contra a nova lei trabalhista, mas também foram organizados à noite por alguns grupúsculos) levaram a debates frequentes sobre a violência durante a assembleia geral, ou em outros espaços. Era possível observar uma clara contradição entre a condenação moral da violência em geral pela maioria da juventude pertencente a este meio social e uma recusa a negar solidariedade a ações violentas minoritárias, vistas como formas de expressão pertencentes ao próprio movimento. Esta questão volta e meia era debatida. A inconsistência política entre esta forma de “radicalismo”, que só alimentava o linchamento midiático do movimento como um todo, parece ter sido entendida por alguns, mas quase nunca foi discutida em público.

nuit5No começo, a solidariedade contra a repressão (contra prisões massivas no final de manifestações, ou durante ações de secundaristas) foi organizada com algum know-how, herdado das lutas ambientais e antiglobalização: presença permanente de advogados na praça, equipes de mobilização legal nas manifestações, encontros antirrepressão etc. Mas, posteriormente, estas iniciativas não se mostraram fortes o suficiente para fazer frente a multiplicação de prisões e indiciamentos.

O medo do terrorismo, que foi e é manipulado pelo governo, não pareceu incomodar a ninguém na praça, e o estado de emergência foi entendido, via de regra, como um estado de exceção legalizado.

Por fim, devemos elogiar a obstinação dos “nuit-deboutistas”: apesar do mau tempo, apesar do assédio policial, apesar das tensões provocadas por alguns incidentes violentos no meio da noite, apesar de toda a energia requerida para garantir a “logística” diária, eles mantiveram a convicção da importância de seu movimento por três meses e meio.

Notas

[1] Caroline de Haas é uma política feminista, antiga líder da UNEF. Fez carreira política no Partido Socialista, do qual saiu abruptamente em 2014, depois de trabalhar como consultora política para o governo “socialista”.
[2] Nota do PP: Há duas Confédération Nationale du Travail (“Confederação Nacional do Trabalho”) na França, ambas de orientação anarco-sindicalista: uma é a “CNT Vignolles” (ver site aqui) e a outra é a “CNT-AIT” (ver site aqui).
[3] Nota do PP: convergence des luttes (“convergência de lutas”) é palavra de ordem comum nas alas mais combativas do sindicalismo francês, e expressa o desejo, por parte de seus militantes, de ultrapassar os limites das lutas sindicais e fazê-las convergir com outras lutas sociais em curso.

Recebido por e-mail e traduzido para o português pelo Passa Palavra.

Este texto está dividido em quatro partes:
A atmosfera social na França esquenta
(ver aqui)
Nuit Debout (“noite de pé”) em Paris
O peso político do Nuit Debout (ver aqui)
A luta contra a nova lei trabalhista (ver aqui)


Comentários 2

    • Douglas

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      set 2, 2016

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      Parabéns ao empenho dos camaradas do Passa em traduzir o artigo. E parabéns aos camaradas por reconstruírem e traduzirem pra nós o que está acontecendo em solo francês

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      set 2, 2016

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      Extremamente interessante saber que a repressão policial de Estado não é exclusividade dos sul – americanos. Reflito sobre o país da Revolução dos direitos inalienáveis em 1789 passar no momento por uma dissonância tão grande entre povo e Estado.

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