Rússia: A aplicação do bolchevismo no quadro nacional (parte 1)

Rússia: A aplicação do bolchevismo no quadro nacional (parte 1)

em 20 mar

A capitulação dos bolchevistas às imposições do militarismo imperial alemão representou a desnaturação de um processo revolucionário até então exclusivamente internacionalista. Por João Bernardo

Nos anos que decorreram entre as duas guerras mundiais o tema do nacional-bolchevismo reproduziu, na esquerda mais extrema, o mito da nação proletária que antes de 1914 havia sido formulado na direita mais radical. Ficaram então criadas condições de simetria que permitiram a cada um destes pólos reflectir o outro nalgumas das suas concepções e estratégias. A esfera terminológica desenvolvida em torno da «nação proletária» passou a ser usada tão frequentemente pela multiplicidade dos políticos de esquerda inseridos no campo do nacional-bolchevismo como a caracterização de «nacional-bolchevista», ou um dos seus sinónimos, pôde ser reivindicada por figuras da extrema-direita e do fascismo situadas na imediata linhagem das teses de Corradini.[*]

Delegação russa em Brest-Litovsk, 3 de dezembro de 1917

Não se pode elucidar a génese do nacional-bolchevismo sem conhecer os problemas debatidos no seio do partido bolchevista e do seu episódico aliado, o Partido dos Socialistas-Revolucionários de Esquerda, por ocasião das conversações entre o governo soviético e as autoridades políticas e militares das Potências Centrais, que conduziram ao tratado de Brest-Litovsk. Perante a recusa da Entente em aceitar negociações de paz, as conversações entre os soviéticos e os alemães, acompanhados pelos austro-húngaros, os búlgaros e os turcos, começaram em Brest-Litovsk em Novembro de 1917, ou em Dezembro, consoante o calendário que usarmos, e o armistício entre a Rússia e as Potências Centrais foi assinado em 2, ou 15, de Dezembro. Para avaliarmos em toda a dimensão a mudança de atitude a que procederam pouco depois os dirigentes bolchevistas, convém saber que nesta ocasião as duas cláusulas do armistício em que a diplomacia soviética mais insistiu foram a autorização à fraternização e à troca de propaganda entre os militares de ambos os lados, numa demonstração flagrante de que o carácter internacionalista da revolução não era atenuado pelo facto de estarem a processar-se conversações entre Estados, e o compromisso alemão de não transferir tropas da frente leste para a frente ocidental, de maneira a que a Rússia não obtivesse a paz à custa dos soldados da Entente[1]. A propósito desta última cláusula escreveria algum tempo mais tarde o socialista-revolucionário de esquerda Isaac Steinberg, que foi comissário do povo para a Justiça no governo soviético: «A revolução russa demonstrou assim que se preocupa mais com os trabalhadores franceses e ingleses morrendo nos campos de batalha do que se preocupam os seus protectores “naturais”, os seus governos “legítimos”»[2].

As convulsões sociais na Rússia inseriam-se na revolta generalizada da Europa em guerra, que começara ao longo do ano de 1916 nas trincheiras e nas fábricas de França e se estendera a toda a classe trabalhadora dos países beligerantes. Desde Abril de 1917, quando Lenin persuadiu os seus fiéis a seguirem uma nova orientação com o objectivo de precipitar a revolução socialista, até à insurreição de Outubro, que os levou ao poder, nenhum bolchevista imaginava que a obtenção da paz e a revolução proletária na Europa pudessem constituir processos separados[3]. Durante as discussões no comité central bolchevista em Outubro de 1917 a sublevação na frota de guerra alemã, que ocorrera naquele Verão, foi um dos factores citados em abono da proposta de desencadear imediatamente a insurreição[4]. Mesmo em termos jurídicos os bolchevistas consideraram a conquista do poder como um elemento de um processo internacional, a tal ponto que a cidadania soviética foi oferecida a todos os trabalhadores de origem estrangeira, o que de imediato significava que as centenas de milhares de prisioneiros de guerra podiam, se o desejassem, incluir-se na nova república[5]. Aliás, numa demonstração de que a fraternização entre soldados de campos opostos constituía uma realidade prática, em Dezembro de 1917 Trotsky anunciou que prisioneiros de guerra austro-húngaros se haviam apresentado para combater em defesa da revolução soviética no caso de as Potências Centrais recomeçarem as hostilidades[6]. Com efeito, prisioneiros de guerra de várias nacionalidades alistaram-se em 1918 no Exército Vermelho[7] e em Fevereiro desse ano a Pravda publicou um apelo assinado por três norte-americanos, e que parece ter sido difundido em cinco línguas, para a constituição de um destacamento internacional integrado no Exército Vermelho[8]. Sem dúvida que os acontecimentos na Rússia eram vistos como um elemento componente de uma revolução à escala internacional.

Soldados alemães e russos celebram o cessar-fogo em dezembro de 1917

Uma semana depois da assinatura do armistício iniciaram-se, também em Brest-Litovsk, as negociações formais para um tratado de paz. No caso de o governo alemão vir a impor exigências inaceitáveis, o partido bolchevista contava desencadear uma guerra revolucionária e esperava que os soldados alemães preferissem amotinar-se a combater contra a revolução[9]. Mas o que sucederia se eles não o fizessem? Em 5 de Janeiro de 1918, ou 18 de Janeiro consoante o calendário ocidental, os delegados militares alemães presentes em Brest-Litovsk exigiram para a conclusão do tratado de paz condições territoriais muitíssimo onerosas. Três dias depois realizou-se em Petrogrado uma reunião informal de sessenta e três dirigentes bolchevistas, especialmente convocada para discutir as conversações com as Potências Centrais. Afinal, o que representavam estas negociações? Um estímulo à revolução proletária nos países beligerantes, de um e outro lado das frentes de combate? Ou uma manobra para permitir um período de consolidação ao jovem Estado soviético? Entre os presentes na reunião, trinta e dois persistiram na defesa intransigente da posição que o partido tinha seguido até então, propondo que se desse início à guerra revolucionária no caso de as autoridades alemãs insistirem em condições demasiado pesadas, uma atitude idêntica à adoptada unanimemente pelos socialistas-revolucionários de esquerda, que nessa altura participavam no governo soviético; quinze dirigentes bolchevistas defenderam a nova posição adoptada por Lenin, que se resumia em obter uma paz imediata a qualquer custo; e dezasseis apoiaram Trotsky numa táctica bizarra, que consistia em não aceitar as condições de paz impostas, mas também não declarar guerra à Alemanha[10]. O plano de Trotsky foi aprovado pelo comité central, já que parecia ter a virtude de conciliar as facções opostas[11], e os socialistas-revolucionários de esquerda aderiram igualmente à táctica de não fazer a guerra nem assinar a paz[12]. A 28 de Janeiro, ou 10 de Fevereiro, de 1918 a delegação soviética retirou-se de Brest-Litovsk, anunciando que a Rússia se recusava a aceitar a paz anexionista proposta pelos alemães e que ao mesmo tempo punha fim ao estado de beligerância com as Potências Centrais. As astúcias de Trotsky não surtiram, todavia, resultados práticos e uma semana depois o exército germânico recomeçou as hostilidades. Parece que no comité central bolchevista já ninguém, nem mesmo os que se recusavam terminantemente a admitir as condições alemãs, sugeria que se começasse uma guerra revolucionária, e a facção oposta a Lenin pretendia apenas que o governo soviético se esforçasse por atrasar qualquer decisão, para ver qual seria a influência dos acontecimentos sobre o movimento operário alemão e austríaco[13].

Trotsky em Brest-Litovsk

A notícia de que as tropas alemãs estavam a avançar e a ocupar mais territórios precipitou uma decisão do comité central bolchevista que, por sete votos contra cinco, aceitou comunicar ao governo de Berlim a disposição de assinar a proposta de paz[14]. Nessa noite o comité central dos bolchevistas reuniu-se com o comité central dos seus aliados no governo, os socialistas-revolucionários de esquerda, e a maioria dos presentes manifestou-se favorável a uma guerra revolucionária contra as Potências Centrais, mas no dia seguinte o governo, onde os bolchevistas detinham a maioria, aprovou a decisão de anunciar oficialmente aos alemães que a paz era aceite[15]. Quatro dias depois, todavia, em 23 de Fevereiro de 1918, o governo de Berlim respondeu formulando novas exigências, mais onerosas do que as anteriores[16]. Reunido imediatamente o comité central, Lenin declarou: «A revolução alemã ainda não está madura. Isso levará meses. As condições têm de ser aceites»[17]. Lenin venceu na votação, e na Pravda do dia seguinte expôs as suas perspectivas nas «Teses sobre a Conclusão Imediata de uma Paz Separada e Anexionista», onde afirmou: «A situação actual da revolução socialista na Rússia deve constituir a base de qualquer definição das tarefas internacionais do nosso poder soviético, porque a conjuntura internacional neste quarto ano da guerra faz com que seja completamente impossível calcular o momento provável da explosão revolucionária e do derrube de qualquer dos governos imperialistas europeus (incluindo o governo alemão). Não há dúvida de que a revolução socialista na Europa tem necessariamente de ocorrer e ocorrerá. Todas as nossas esperanças na vitória definitiva do socialismo assentam nesta convicção e nesta previsão científica». O risco é grande quando se confundem no mesmo traço de caneta a fé e a ciência, mas como não são problemas epistemológicos que estão agora em causa continuemos a ler o texto de Lenin. «A nossa actividade propagandística em geral e a organização da fraternização em particular devem ser reforçadas e ampliadas. Mas seria um erro basear a táctica do governo socialista da Rússia em hipóteses: a revolução socialista ocorrerá ou não na Europa, e especialmente na Alemanha, nos próximos seis meses (ou num prazo igualmente curto)?». Lenin apresentou aqui como alternativas distintas a dinâmica do processo revolucionário na Rússia e a sua dinâmica nos demais países europeus, como se o facto de a Rússia encetar uma guerra revolucionária não pudesse contribuir para antecipar a revolução alemã. A estratégia internacional do Estado soviético passara a depender de um ritmo próprio. E quando, com a clareza de expressão que lhe era habitual, Lenin escreveu que «a partir do momento da vitória do governo socialista num dado país os problemas devem ser resolvidos não sob o ponto de vista da preferência a dar a um ou outro imperialismo, mas exclusivamente sob o ponto de vista das condições mais favoráveis para o desenvolvimento e o reforço da revolução socialista já iniciada»[18], o que na verdade estava a afirmar era a necessidade de atribuir a prioridade ao desenvolvimento e ao reforço da revolução onde ela de facto se havia iniciado, ou seja, na Rússia. Imperceptivelmente, passara-se do ideal de que os trabalhadores não têm pátria para o postulado da defesa da pátria do socialismo. A 3 de Março de 1918 o tratado de Brest-Litovsk era assinado.

Não se tratou só, nem principalmente, de entregar às autoridades da Alemanha certos territórios, mas sobretudo de lhes reconhecer o controlo absoluto sobre a população desses territórios, permitindo-lhes que, através da repressão e das chacinas, destruíssem a obra de renovação social que os operários e os camponeses aí haviam encetado. A capitulação dos bolchevistas perante as imposições do militarismo imperial alemão representou a desnaturação de um processo revolucionário que até então fora exclusivamente internacionalista. «Os bolchevistas, que passaram a estar sozinhos no governo soviético, ficaram com toda a responsabilidade pela aplicação do tratado de paz de Brest-Litovsk. Mas a partir de então a revolução soviética deixou de ser uma revolução internacional e tornou-se, pelo contrário, uma revolução nacional», escreveu em Julho de 1918 o socialista-revolucionário de esquerda Steinberg, antigo comissário do povo para a Justiça[19].

Delegações germânicas, austro-húngaras e soviéticas à mesa em Brest-Litovsk

Os devotos do realismo político não devem perder de vista que a estratégia prosseguida por Lenin, e à qual Trotsky aderiu, não teve um carácter menos impraticável do que aquele que foi imputado às propostas dos opositores ao tratado. O militarismo alemão e austro-húngaro chegara aos últimos alentos. A derradeira ofensiva dos generais alemães na frente ocidental, iniciada poucos dias após a ratificação da paz de Brest-Litovsk, não lhes deixou nenhuma capacidade de iniciativa a Leste, impossibilitando-os de ocuparem mais territórios russos do que aqueles que haviam conseguido mediante o tratado[20]. Os bolchevistas sobrestimaram a força do imperialismo germânico e cederam quando parece que podiam ter resistido. Em Janeiro de 1918 ocorrera um movimento de greves em Berlim e em mais meia centena de cidades alemãs, tal como nas duas capitais do Império Austro-Húngaro, Viena e Budapeste, acompanhado pela criação de conselhos e por manifestações contra a guerra. Ao mesmo tempo a deserção crescia no exército alemão, a tal ponto que entre o meio milhão de tropas retiradas da frente russa na sequência do armistício de Dezembro, cerca de cinquenta mil desertaram, por vezes em confrontos sangrentos com os seus oficiais[21]. O que sucederia se tivessem recebido ordem para atacar a Rússia soviética? Mas a facção leninista contara decerto que esta agitação se transformasse por si mesma numa revolução, da noite para o dia, e quando tal não sucedeu perdeu as esperanças numa extensão a curto prazo do processo insurreccional. No 7º Congresso do partido, em Março de 1918, Bukharin invocou as greves nos Impérios alemão e austro-húngaro e o aparecimento de conselhos para demonstrar que Lenin recuara numa ocasião em que o movimento revolucionário exigia que se avançasse[22].

É claro que ficamos sem saber o que sucederia se o governo soviético se tivesse recusado a assinar o tratado de Brest-Litovsk. A história não se faz no futuro do pretérito. Mas poderia o fermento existente na Alemanha e no duplo império, que revelou as suas potencialidades no final do ano, ter dado origem imediatamente a uma revolução se os bolchevistas tivessem naquela altura manifestado mais ousadia do que prudência? O certo é que, se a situação acabou por ser resolvida em benefício da Rússia soviética, isso não se deveu à assinatura do tratado mas ao colapso do império germânico. E este colapso foi provocado precisamente por aquela revolução de que Lenin e os seus apoiantes desesperaram ou que não souberam acelerar. É irónico que a revolução alemã ocorresse durante uma época em que a intervenção da Entente na guerra civil russa levava o governo soviético a prosseguir uma política especialmente conciliatória para com o governo do Kaiser. E não menos revelador é o facto de a agitação revolucionária em França, na Inglaterra e nos Estados Unidos ter contribuído eficazmente para que cessasse o apoio militar dado por estes países às tropas brancas. Mas nessa altura o processo já estava invertido. A política definida pelo partido bolchevista por ocasião das negociações de Brest-Litovsk ditou a orientação que foi depois conferida à guerra civil, canalizando-se em defesa da «pátria socialista» energias que antes haviam passado por cima das fronteiras. Pode afirmar-se, sem extrapolar os limites da história, que a paz assinada em Brest-Litovsk contribuiu para atrasar e enfraquecer a revolução na Alemanha e no resto da Europa, e que este facto condicionou o decurso posterior da revolução russa.

Março de 1918: soldados russos e germânicos comemoram juntos a paz

Em Março de 1918, no 7º Congresso do seu partido, Lenin argumentou que a necessidade de manter a aliança com a população rural tornara imperiosa a assinatura do tratado de paz, já que os camponeses não queriam a guerra, para poderem desfrutar a terra que haviam acabado de obter[23]. À primeira vista parecia estar certo, pois aqueles que se opuseram à capitulação perante as Potências Centrais, os socialistas-revolucionários de esquerda e os membros da facção bolchevista de esquerda, foram incapazes de aplicar na prática o que defendiam na imprensa e nas tribunas. «A facção favorável à guerra não estava segura de si», comentou um historiador. «Ela não empregou para um recomeço das hostilidades o mesmo vigor que demonstrava quando se opunha à paz»[24]. O fracasso do Partido dos Socialistas-Revolucionários de Esquerda, tradicionalmente ligado aos camponeses radicais, foi aqui especialmente notório. Steinberg, que até à ruptura da aliança daquele partido com os bolchevistas chefiara o Comissariado do Povo para a Justiça, teve sem dúvida razão ao escrever, em Julho de 1918, que a oposição de esquerda no interior do partido bolchevista «é vítima da doença da inércia e da falta de vontade. E se se distingue da tendência de Lenin pela profundidade e franqueza da análise, diferencia-se também pela falta de energia, de decisão e de capacidade de pressão»[25]. Mas seria muito diferente na prática o comportamento dos companheiros de Steinberg? Quando ele pretendia que as tropas alemãs invasoras se insubordinariam ao entrar em contacto com as massas revolucionárias russas[26], estava a presumir que os outros dessem mostras da iniciativa que lhe faltava a si e aos seus correligionários. A mesma passividade expectante levou Steinberg a afirmar que, ao verem as autoridades alemãs restabelecerem nos territórios ocupados a antiga ordem social, «os operários e os camponeses revoltar-se-iam espontaneamente contra os seus opressores»[27]. Bukharin também declarou que «os camponeses serão levados a lutar quando ouvirem, virem e compreenderem que lhes estão a tirar as suas terras, as suas botas e as suas sementes», e extraiu daqui as devidas lições, concluindo que uma guerra deste tipo não mobilizaria um exército convencional. «A guerra que propomos — pelo menos no início — terá de ser necessariamente uma guerra de pequenos grupos e destacamentos móveis»[28]. Contudo, nem os bolchevistas adversos à capitulação nem os socialistas-revolucionários de esquerda tomaram medidas para coordenar as acções espontâneas que proliferaram nos territórios submetidos à ocupação alemã. Ao declarar, e com toda a razão, que a revolução russa «se rendeu sem resistir, sem sequer tentar um combate»[29], não estava Steinberg a traçar o balanço definitivo da inépcia daquelas forças políticas que apelavam à resistência e ao combate? De nada valiam os bons conselhos e as palavras de ordem que os socialistas-revolucionários de esquerda distribuíam com abundância, quando não os sustentava nenhuma capacidade organizativa.

Isaac Steinberg, SR de esquerda

Bukharin e os seus companheiros preferiram não comprometer a unidade do partido bolchevista e desistiram de conduzir na prática uma guerra de guerrilhas, apesar de terem anunciado em todos os tons que dela dependia o prosseguimento da revolução mundial. Por seu lado, em vez de se esforçarem por desenvolver no terreno uma política positiva que contrabalançasse o recuo assumido pelos comunistas, os socialistas-revolucionários de esquerda limitaram-se a uma atitude negativa, procurando comprometer a paz concluída com a Alemanha, mas sem lhe substituírem nenhuma alternativa concreta. Tendo deixado de participar no governo soviético, os socialistas-revolucionários de esquerda regressaram à táctica dos atentados individuais em que haviam sido mestres e na sessão de 24 de Junho de 1918 o seu comité central decidiu «organizar […] uma série de acções terroristas dirigida contra os representantes mais notórios do imperialismo alemão»[30]. Foi neste contexto que mataram o embaixador alemão em Moscovo, no princípio de Julho, e desencadearam poucos dias depois uma tentativa insurreccional, que os bolchevistas não tiveram dificuldade em liquidar[31]. Mais tarde, só por pouco Lenin escapou com vida a um atentado, mas bastantes dirigentes bolchevistas foram mortos[32], sem que nada disto contribuísse para atear a luta armada contra os ocupantes alemães. Aparentemente, o Partido dos Socialistas-Revolucionários de Esquerda não pretendia substituir-se aos bolchevistas no comando do processo revolucionário, mas apenas fazê-los renunciar aos ditames de Brest-Litovsk e obter de novo a sua aliança[33]. De maneira incongruente, a resolução de 24 de Junho que anunciou o regresso ao terrorismo declarou também que «concebemos a nossa acção como uma luta contra a actual política dos comissários do povo e de modo nenhum como uma luta contra os bolchevistas»[34], o que confirma a incapacidade deste partido de promover uma orientação autónoma.

A 2ª parte deste artigo será publicada na segunda-feira, dia 27 de março.

Notas

[*] Nota do Passa Palavra: sobre as ideias de Corradini e o mito da “nação poletária”, confira Ainda não sabiam que eram fascistas, série de João Bernardo que também integra seu livro dos Labirintos do Fascismo.

[1] E. H. Carr (1966) III 39-40; I. Deutscher (1972) II 170-171.

[2] I. Steinberg (1918) 76.

[3] E. H. Carr (1966) III 18-19.

[4] Id., ibid., III 20.

[5] Id., ibid., III 27.

[6] Id., ibid., III 30.

[7] Id., ibid., III 82-85.

[8] Id., ibid., III 27.

[9] Id., ibid., III 43-44; I. Deutscher (1972) II 175-179.

[10] E. H. Carr (1966) III 46; I. Deutscher (1972) II 200. Trotsky possuía um notável sentido do burlesco, que teve talvez o melhor exemplo na forma hilariante como ridicularizou o oficial de polícia encarregado de prender os membros do soviete de São Petersburgo em Dezembro de 1905. Isaac Deutscher, op. cit., I 259-260 descreveu este episódio. Mas, se tais habilidades podem ter lugar na petite histoire, não desempenham nenhum papel na história, o que Trotsky nem sempre conseguiu compreender.

[11] I. Deutscher (1972) II 202-203.

[12] I. Steinberg (1918) 79; L. Trotsky (1970) 445-446.

[13] E. H. Carr (1966) III 49-50.

[14] Id., ibid., III 50.

[15] I. Deutscher (1972) II 219.

[16] E. H. Carr (1966) III 50.

[17] Citado em id., ibid., III 51.

[18] V. Lénine (1958) 462-463, 465 (sub. orig.). Estas «Teses…» haviam já sido lidas por Lenin na reunião de sessenta e três dirigentes do partido, realizada a 8, ou 21, de Janeiro, a que me referi há pouco, mas a sua publicação só teve lugar a 24 de Fevereiro.

[19] Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes) (1918) 12 (subs. Orig.).

[20] E. H. Carr (1966) III 93 n. 2 informou que, segundo as declarações do comissário do povo para os Negócios Estrangeiros, Tchitcherin, só em Agosto de 1918 os dirigentes soviéticos se teriam apercebido da fraqueza alemã. E, embora defendesse nesta questão a posição adoptada por Lenin, I. Deutscher (1972) II 224 observou que, mesmo que os soviéticos não tivessem capitulado em Brest-Litovsk, a situação na frente ocidental impedia o exército germânico de ocupar mais territórios a Leste do que aqueles que foram anexados graças ao tratado de paz. Isaac Deutscher reconheceu ainda que «ao pronunciarem-se contra a capitulação, Bukharin e Radek insistiam naquele facto, que era um dos que mais restringia a liberdade de acção da Alemanha. A história secreta da guerra mostrou, mais tarde, que nestas circunstâncias a sua avaliação fora mais exacta do que a de Lenin».

[21] N. Howard (2004) 20.

[22] E. H. Carr (1966) III 61.

[23] Id., ibid., III 62.

[24] I. Deutscher (1972) II 201. Um ponto de vista coincidente foi defendido por S. F. Cohen (1990) 84.

[25] «Os Nossos Aliados no Campo dos Nossos Adversários», em Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes) (1918) 27-28. Este artigo está assinado «J. S.», mas outro texto de Isaac Steinberg publicado na mesma colectânea apresenta a assinatura «J. Steinberg». Além de eventuais gralhas tipográficas, era frequente a confusão entre i e j nas transcrições do russo.

[26] I. Steinberg (1918) 81.

[27] Id., ibid., 82.

[28] Citado em S. F. Cohen (1990) 87 (introduzi algumas modificações na tradução brasileira para adaptá-la ao uso corrente em Portugal).

[29] I. Steinberg (1918) 100 (sub. Orig.).

[30] Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes) (1918) 63. Deve ler-se igualmente A. Schreider, «Le Terrorisme comme Moyen d’Action Révolutionnaire», em id., ibid., 19-22.

[31] I. Deutscher (1972) II 248-249; Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes) (1918) 60-61.

[32] E. H. Carr (1966) I 175, III 91-92; S. F. Cohen (1990) 121; I. Deutscher (1972) II 277.

[33] Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes) (1918) 46-47.

[34] Id., ibid., 64.

Referências

Edward Hallett Carr (1966) A History of Soviet Russia. The Bolshevik Revolution, 1917-1923, 3 vols., Harmondsworth: Penguin.

Stephen F. Cohen (1990) Bukharin. Uma Biografia Política, 1888-1938, São Paulo: Paz e Terra.

Isaac Deutscher (1972) Trotsky. I: Le Prophète Armé (1879-1921), 2 vols., Paris: Julliard e Union Générale d’Éditions (10/18).

Nick Howard (2004) «The German Revolution Defeated and Fascism Deferred. The Servicemen’s Revolt and Social Democracy at the End of the First World War, 1918-1920», em Tim Kirk e Anthony McElligott(orgs.) Opposing Fascism. Community, Authority and Resistance in Europe, Cambridge: Cambridge University Press.

V. Lénine (1958) «Thèses sur la Conclusion Immédiate d’une Paix Séparée et Annexionniste», em Œuvres, vol. XXVI, Paris: Éditions Sociales, Moscovo: Éditions en Langues Étrangères (depois: Éditions du Progrès).

Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes) (1918) La Russie Socialiste (Événements de Juillet 1918), Genebra: Reggiani (reprodução fac-simile em Les Socialistes-Révolutionnaires de Gauche dans la Révolution Russe. Une Lutte Méconnue, Paris: Spartacus, 1983).

I. Steinberg (1918) Pourquoi nous Sommes contre la Paix de Brest-Litowsk, Genebra: Reggiani (reprodução fac-simile em Les Socialistes-Révolutionnaires de Gauche dans la Révolution Russe. Une Lutte Méconnue, Paris: Spartacus, 1983).

Léon Trotsky (1970) Ma Vie, Paris: Gallimard (Le Livre de Poche).

Originalmente publicado como terceira seção do capítulo 2 da parte 3 do livro Labirintos do Fascismo: nas encruzilhadas da ordem e da revolta (Lisboa: Edição do Autor, 2015, pp. 615-638), de João Bernardo, que autorizou sua reprodução na série especial de artigos publicados pelo Passa Palavra em comemoração aos cem anos da Revolução Russa. Foram mantidas a grafia e a sintaxe originais, mas as notas foram renumeradas para se adequar ao formato de um artigo dividido em partes, que serão publicadas semanalmente.


Comentários 5

    • Pedro

      |

      mar 21, 2017

      |

      Por favor, eu procuro um texto do João Bernardo onde ele escreveu sobre um homem que era o mestre dos disfarces e conseguiu transitar por vários grupos politicos mantendo a sua liberdade. Não recordo o titulo do texto, era algo biográfico.

    • |

      mar 21, 2017

      |

      Caro Pedro,

      Acreditamos que o texto a que se refere seja “Lucien Laurat no país dos espelhos” cujos links para as 4 partes podem ser encontrados aqui.

      Cordialmente,
      Coletivo Passa Palavra

    • João Bernardo

      |

      mar 21, 2017

      |

      Creio que será outro o texto que Pedro procura, «O Génio da Mistificação», sobre Léo Taxil:
      http://passapalavra.info/2009/08/9540
      Já agora, no final desse artigo cito um romance de Jules Romains, «Les Copains». Deixo aqui um apelo a que todos leiam esse livro e aprendam com ele. Para quem não souber francês, havia uma tradução, mas publicada em Portugal durante o fascismo, por isso a censura cortou-lhe um capítulo, como habitualmente sem prevenir os leitores. Não sei se haverá uma nova tradução, integral. Léo Taxil e Jules Romains nesse romance ensinaram a virar as coisas do avesso.

    • Pablo

      |

      mar 21, 2017

      |

      Segue o link para uma versão em txt do livro de Jules Romains (resta alguém formatar o texto em um bom pdf):
      https://archive.org/stream/lescopains00romauoft/lescopains00romauoft_djvu.txt

      Numa pesquisa rápida não encontrei o texto integral traduzido, mas se o foi em alguma editora brasileira não me surpreenderia ter um título em tudo diverso, seguindo o péssimo costume das editoras, verdadeiramente criminoso, de renomear o livro traduzido conforme lhes convenha.

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