O que é “Makhaevismo”?

O que é “Makhaevismo”?

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em 18 abr

Machajski percebeu que a “intelligentsia radical” não procurava alcançar uma sociedade sem classes, mas meramente se estabelecer no estrato privilegiado. Por Paul Avrich

Quando o “Curso Sintético da História do Partido Comunista” foi publicado pela Pravda em 1938, foi acompanhado de um decreto que enfatizava o papel da intelligentsia na construção da sociedade Soviética. O decreto condenava severamente a convicção “makhaevista” de que os intelectuais — oficiais do partido, administradores das fábricas e fazendas, oficiais do exército, especialistas técnicos, cientistas — formariam uma casta à parte de homens oportunistas que não possuíam nada em comum com o trabalhador na linha de produção ou o camponês por detrás do arado. Essa atitude hostil com a intelligentsia, declarava o decreto, era “selvagem, delinquente e perigosa para o Estado Soviético”.

Jan Waclaw Machajski (ou Makhaïski), em 1917

Jan Waclaw Machajski (ou Makhaïski), em 1917

Muitos leitores da Pravda, intrigados pela estranha expressão “makhaevismo”, escreveram para os editores pedindo para explicá-la (alguns leitores, ao que parece, confundiram “Makhaevismo” com “Machismo”, filosofia do físico austríaco Ernst Mach, a qual Lenin havia severamente criticado trinta anos antes). A Pravda respondeu que o “makhaevismo é uma teoria nociva que calunia a intelligentsia ao classificá-la como os novos exploradores dos trabalhadores e camponeses”; os seus adeptos são “degenerados e inimigos”, cujo slogan é “Abaixo a intelligentsia”. Negando veementemente que a intelligentsia constituía uma nova classe de opressores, a Pravda assegurou que os intelectuais e as massas trabalhadoras são como “carne e osso”. No entanto, a saraivada de insultos da Pravda apenas fez aumentar a névoa de confusão acerca do termo “makhaevismo” que, a partir da década de 1930, tornou-se simplesmente um epíteto conveniente para desqualificar intelectualmente seus oponentes. Mas o que, de fato, seria “makhaevismo”? Qual a sua origem, e que influência realmente exerceu?

Jan Waclaw Machajski[1] nasceu no ano de 1866 em Busk, uma pequena cidade de cerca de dois mil habitantes, situada perto de Kielce na “parte russa da Polônia”. Ele era o filho de um escriturário indigente, que morreu quando Machajski era criança, deixando uma grande e destituída família. Machajski cursou o ginásio em Kielce e ajudou os seus irmãos e irmãs dando aulas para colegas da escola que estavam hospedados no apartamento de sua mãe. Ele iniciou sua carreira revolucionária em 1888 nos círculos estudantis da Universidade de Varsóvia, onde ele havia se inscrito em cursos de ciências naturais e medicina. Dois ou três anos depois, enquanto estava frequentando a Universidade de Zurique, ele abandonou a sua primeira filosofia política (uma mistura de socialismo e nacionalismo polonês) e aderiu ao internacionalismo de Marx e Engels. Machajski foi preso em maio de 1892, devido à posse de panfletos revolucionários que levaria da Suíça para a cidade industrial de Lodz, a qual estava à beira de uma greve geral. Em 1903, após uma dúzia de anos na prisão e no exílio na Sibéria, ele escapou para a Europa ocidental, onde permaneceu até estourar a revolução de 1905.

Durante o longo tempo de banimento em que permaneceu no assentamento de Vilyuisk na Sibéria (província de Yakutsk), Machajski fez um estudo intensivo da literatura socialista e chegou à conclusão de que os Social-Democratas não representam os interesses dos trabalhadores manuais, mas de uma nova classe de “trabalhadores mentais”, engendrada pelo surgimento do industrialismo. O marxismo, ele afirmou em sua obra principal — “Umstvennyy rabochiy”[2] —, refletia os interesses desta nova classe, que esperava subir ao poder sobre os ombros dos trabalhadores manuais. Em uma sociedade dita “socialista”, declarou, “os capitalistas do setor privado serão meramente substituídos por uma nova aristocracia de administradores, especialistas técnicos e políticos; os trabalhadores manuais serão escravizados por uma nova minoria dominante cujo capital, por assim dizer, será a educação”.

No desenvolvimento de suas sua teorias antimarxistas, Machajski foi fortemente influenciado por Mikhail Bakunin e pelos economistas da década de 1890. Uma geração antes de sua obra “Umstvennyy rabochiy”, Bakunin havia denunciado Marx e seus seguidores, identificando-os como intelectuais limitados que, vivendo em um mundo irreal de livros mofados e jornais grosseiros, não entendiam nada de sofrimento humano. Embora Bakunin acreditasse que os intelectuais desempenhariam um papel importante na luta revolucionária, ele alertou que os seus rivais marxistas possuíam um insaciável desejo pelo poder. Em 1872, quatro anos antes de sua morte, Bakunin especulou como seria a “ditadura do proletariado” preconizada por Marx caso ela fosse implantada:

Será o domínio do intelecto científico, o mais autocrático, mais despótico, o mais arrogante, o mais insolente de todos os regimes. Haverá uma nova classe, uma nova hierarquia, de genuínos ou falsos eruditos, e o mundo será dividido em uma minoria dominante, em nome da ciência, e uma imensa maioria ignorante.

Em um de seus mais importantes trabalhos — Estatismo e Anarquia —, publicado no ano seguinte, Bakunin retomou e desenvolveu a sua profecia na seguinte impactante passagem:

De acordo com a teoria do Sr. Marx, o povo não somente não deve destruir o Estado mas deve fortalecê-lo e colocá-lo completamente à disposição de seus beneficiários, guardiões, professores, e os líderes do partido Comunista, a saber, Sr. Marx e seus amigos, que irão, à sua maneira, libertar a humanidade. Eles irão concentrar o domínio do governo com uma mão forte, porque o povo ignorante requer uma tutela extremamente firme; eles vão instituir um único banco estatal, concentrando em suas mãos toda a produção comercial, industrial, agrícola, e até a produção científica, e então dividirão as massas em dois exércitos: industrial e agrícola — sob o comando direto dos engenheiros estatais, que constituirão uma nova casta privilegiada, que exercerá uma dominação científica e política.

De acordo com Bakunin, os seguidores de Karl Marx e de Auguste Comte seriam também “sacerdotes da ciência”, ordenados em uma nova “igreja privilegiada da mente e da educação superior”. Eles desdenhosamente informam ao homem comum: “Você não sabe nada, não entende nada, você é uma besta, e um homem de inteligência deve colocar uma sela e uma rédea em você e guiá-lo”.

Edição francesa do livro "O socialismo dos intelectuais", de Machajski.

Edição francesa do livro “O socialismo dos intelectuais”, de Machajski.

Bakunin argumentava que a educação era um grande instrumento de dominação assim como a propriedade privada. Contanto que o aprendizado seja preterido por uma minoria da população, ele escreveu em 1869 em um ensaio intitulado Educação Integral, este pode ser utilizado efetivamente para explorar a maioria. “Aquele que sabe mais”, ele escreveu, “irá naturalmente dominar aquele que sabe menos”. Mesmo que os latifundiários e capitalistas sejam eliminados, haverá o perigo de que o mundo seja dividido uma vez mais em uma massa de escravos e um número pequeno de governantes, os primeiros trabalhando para os segundo, como ocorre”. A solução de Bakunin seria arrancar a educação do domínio monopolístico das classes privilegiados e torná-la disponível igualmente para todos. Assim como o capital, a educação deve cessar de ser o “patrimônio de uma ou algumas classes” e se tornar “propriedade comum de todos”. Uma educação integrada de ciência e trabalhos manuais (mas não nas insípidas abstrações da religião, metafísica e sociologia) seria capaz de engajar todos os cidadãos em trabalhos tanto manuais quanto mentais, desta forma eliminando uma importante fonte de desigualdade. “Todos devem trabalhar, e todos devem ser educados”, Bakunin declarou, assim em uma futura sociedade justa não haverá “nem trabalhadores nem cientistas, mas apenas homens”.

O abismo entre as classes educadas e as massas da população russa era maior do que em qualquer outro lugar da Europa, e durante os anos de 1870, quando os jovens estudantes populistas de Moscou e São Petesburgo foram de encontro ao povo do campo, eles se depararam com uma barreira invisível que os separava da população ignorante. O lamentável fracasso da tentativa de se comunicar com os camponeses levou alguns desiludidos populistas a abandonar a educação que eles pensaram que estava separando-os das massas. Outros se perguntaram se a desigualdade educacional poderia ser superada e se o filósofo populista Nikolai Mikhailovski não estaria certo quando observou que a minoria alfabetizada deve “inevitavelmente escravizar” a maioria trabalhadora.

Tampouco a situação melhorou quando os camponeses foram para a cidade para trabalhar nas fábricas, pois eles trouxeram com eles a suspeita que tinham dos intelectuais. Um trabalhador de São Petesburgo reclamou que “a intelligentsia havia usurpado a posição do trabalhador”. Tudo bem aceitar livros dos estudantes, ele disse, mas quando eles começam a lhe ensinar absurdos, você deve bater neles. “Eles têm que entender que a causa dos trabalhadores pertence aos próprios trabalhadores”. Embora estas ressalvas fossem dirigidas ao círculo populista Chaikovski nos 1870, a mesma atitude persistiu nas décadas seguintes com os populistas e os marxistas, que estavam competindo pela fidelidade da classe emergente de trabalhadores industriais. Em 1883, Georgi Plekhanov, o “pai” da Social-Democracia Russa, sentiu-se obrigado a prometer que a Ditadura do Proletariado seria “tão distante da ditadura de um grupo de revolucionários raznochintsy (profissionais) como o céu está da terra”. Ele garantiu aos trabalhadores que os discípulos de Marx eram homens altruístas, cuja missão era a de levantar a consciência de classe do proletariado para que, assim, este se tornasse “uma figura independente na arena da vida histórica, e não passar eternamente de um guardião para outro”.

Não obstante repetidas garantias deste tipo, muitos trabalhadores das fábricas evitaram a doutrina revolucionária de Plekhanov e seus associados e concentraram os seus esforços para a obtenção de melhorias econômicas e educacionais. Eles começaram a manifestar uma tendência (na qual foram apoiados por uma quantidade de intelectuais simpáticos à sua causa) que depois adquiriu o rótulo de “economismo”. O trabalhador russo mediano estava mais interessado em melhorar as suas condições materiais do que na agitação por objetivos políticos; ele desconfiava dos slogans revolucionários de líderes partidários que pareciam determinados a usá-lo para aventuras políticas que satisfariam suas próprias ambições enquanto a situação dos trabalhadores permaneceria essencialmente inalterada. Programas políticos, escreveu um porta-voz do ponto de vista “economista”, “são convenientes para intelectuais ‘que falam para o povo’, e não para os próprios trabalhadores. E é a defesa dos interesses dos trabalhadores… que consiste o movimento trabalhista”. A intelligentsia, ele acrescentou, citando o célebre preâmbulo de Marx para o estatuto da Primeira Internacional, tendia a se esquecer de que “a libertação da classe trabalhadora deve ser tarefa dos próprios trabalhadores”.

Os argumentos antipolíticos e anti-intelectualistas de Bakunin e dos “economistas” causaram uma impressão permanente em Machajski. Enquanto estava na Sibéria, ele chegou à conclusão que a intelligentsia radical não procurava alcançar uma sociedade sem classes, mas meramente se estabelecer no estrato privilegiado. Não é à toa que o marxismo, ao invés de clamar por uma revolta imediata contra o sistema capitalista, adia o seu colapso para o futuro, quando as condições econômicas estiverem suficientemente maduras. Com um desenvolvimento maior do capitalismo e a sua tecnologia cada vez mais avançada, os “trabalhadores mentais” aumentarão e se fortalecerão o suficiente para estabelecer o seu próprio domínio. Mesmo que a nova tecnocracia venha a abolir a propriedade privada dos meios de produção, Machajski afirmou, a ”intelligentsia profissional“ irá manter a sua posição de controle se apoderando da administração da produção e pela formação de um monopólio sobre o conhecimento especial necessário para operar uma economia industrial complexa. Os gerentes, engenheiros e titulares de cargos políticos irão usar a ideologia marxista como um novo ópio religioso para obscurecer as mentes das massas trabalhadoras, perpetuando-as na ignorância e na servidão.

Machajski suspeitava que seus competidores da esquerda procuravam estabelecer uma ordem social na qual os intelectuais seriam a classe dominante. Ele acusou até mesmo os anarquistas do grupo Khleb i Volya de Kropotkin de advogarem uma concepção gradualista da revolução muito similar à dos Social-Democratas, pois estes esperavam que a revolução vindoura na Rússia não fosse além da Revolução francesa de 1798 ou 1848. Na comuna anarquista idealizada por Kropotkin, Machajski argumentou, “apenas os possuidores de civilização e conhecimento serão livres. A revolução social dos anarquistas, ele insistiu, não seria realmente um levante dos trabalhadores, mas seria de fato uma revolução voltada para os “interesses dos intelectuais”. Os anarquistas seriam “os mesmos socialistas que todos os outros, apenas mais dedicados”.

O que deveria então ser feito para evitar esta nova forma de escravidão? Segundo Machajski, enquanto a desigualdade de renda persistir e os meios de produção continuarem sendo a propriedade privada de uma minoria capitalista, e enquanto o conhecimento científico e técnico continuar sendo “propriedade” de uma minoria intelectualizada, as multidões vão continuar trabalhando para poucos privilegiados. A solução de Machajski pressupunha um papel fundamental para uma organização secreta de revolucionários chamada Raboch Zagovor (A Conspiração dos Trabalhadores), similar à “sociedade secreta” de conspiradores revolucionários preconizada por Bakunin. Presumidamente, o próprio Machajski seria o líder desta. A missão da “Conspiração dos trabalhadores” seria estimular os trabalhadores a realizarem ações diretas, greves, manifestações e atividades do tipo contra os capitalistas com o objetivo imediato de obter melhorias econômicas e trabalho para os desempregados. A “ação direta” dos trabalhadores deveria culminar em uma greve geral que, por sua vez, levaria à ebulição de um levante internacional, inaugurando uma nova era marcada pela igualdade de renda e oportunidades educacionais. No fim, as perniciosas distinções entre trabalho manual e mental seriam obliteradas, junto com todas as divisões de classe.

As teorias de Machajski provocaram discussões apaixonadas entre os vários grupos de radicais russos. Na Sibéria, onde Machajski publicou a primeira parte de sua obra ”Umstvennu rabochiy” em 1898, a sua crítica da Social Democracia “teve um grande efeito sobre os exilados”, assim como Trotsky, que estava entre eles, recordou em sua autobiografia. Em 1901, cópias de “Umstvennyy rabochiy” circulavam em Odessa, onde o “makhaevismo” estava começando a atrair seguidores. Em 1905, um pequeno grupo de makhaevistas chamado “A conspiração dos trabalhadores”, foi formado em São Petesburgo. Apesar das críticas de Machajski aos anarquistas, uma quantidade destes aderiu a sua ideias. Por um tempo, Olga Taratuta e Vladimir Striga, membros importantes da maior organização anarquista na Rússia, a Chernoye Znatnya (Estandarte Negro), se associaram a uma sociedade em Odessa conhecida como Neprimirimiye (Intransigentes), que inclúia tanto anarquistas quanto makhaevistas e o principal círculo anarquista em São Petesburgo, o Beznachaliye (Sem Autoridade), continha alguns discípulos de Machajski. Se alguns escritores anarquistas criticaram Machajski por ver tudo como um grande plano da intelligentsia, muitos outros, como um dos seguidores de Kropotkin admitiu, viram nas doutrinas do “makhaevismo” um “fresco e vivificador espírito em contraste com a sufocante atmosfera dos partidos socialistas, saturados com politicagens”.

O principal Anarco-Sindicalista na Rússia em 1905, Daniil Novomirski, claramente ecoou as suspeitas de Machajski quanto aos “trabalhadores mentais”:

A quem o socialismo contemporâneo serve de fato e não em palavras? Nós respondemos de uma vez e sem hesitação: O socialismo não é a expressão dos interesses da classe trabalhadora, mas dos chamados raznochintsy, ou a intelligentsia. O Partido Social-Democrata, afirmou Novomirski, estava infestado de políticos interesseiros… novos exploradores, novos enganadores do povo.

A vindoura revolução social se revelará uma farsa, ele alertou, caso ela não consiga aniquilar, juntamente com o Estado e a propriedade privada, ainda um terceiro inimigo da liberdade humana: “O nosso novo inimigo declarado é o monopólio do conhecimento; o seu portador é a intelligentsia”. Embora Novomirski acreditasse que era necessária uma “minoria consciente” de “pioneiros” audaciosos para agitar as massas trabalhadoras em ação, ele admoestou os trabalhadores a não esperar por salvadores. Homens abnegados simplesmente não existem — “não nas nuvens escuras do céu vazio, nem nos luxuosos palácios dos czares, nem nas câmaras dos ricos, nem em qualquer parlamento”.

“Marxismo Heterodoxo” (1981): coletânea organizada por Mauricio Tragtenberg, contendo alguns dos textos de Machajski

As ideias de Machajski influenciaram outro grupo ultrarradical nascido na Revolução de 1905, os SR-maximalistas. De fato, um grande agitador do “makhaevismo” comparável ao próprio Machajski, um homem que mal sabia da existência de seu mestre, era um maximalista chamado Yevgeni Yustinovich Lozinski. Em seu livro mais importante, O que, de uma vez por todas, é a Intelligentsia?, Lozinski parafraseou a ideia central da filosofia de Machajski: “A socialização dos meios de produção liberta a intelligentsia de sua subjugação pelo estado capitalista, mas não liberta o trabalho; ela leva a um reforço da escravidão do sistema de classes, ao fortalecimento da submissão dos trabalhadores”.

Ecos similares dos escritos de Machajski se encontram nos numerosos panfletos e artigos anarquistas, maximalistas e outras seitas de extrema-esquerda. Porém com a severa repressão de Stolypin nos anos que se seguiram à Revolução de 1905, esses ecos rapidamente esvaeceram e os homens que os produziram desapareceram nas prisões e no exílio. O próprio Machajski, que havia retornado à Rússia em 1905, foi compelido a ir embora novamente dois anos depois.

O radicalismo russo, em baixa durante a década que se seguiu, rapidamente foi ressuscitado com a explosão da Revolução de Fevereiro. Apesar de que nem a “Conspiração dos Trabalhadores”, nem outra organização composta por makhaevistas surgiu em 1917, o espírito do makhaevismo estava muito em evidência no interior do movimento trabalhista. Assim como em 1905, a influência de Machajski era particularmente forte entre anarquistas e maximalistas. Em setembro de 1917, por exemplo, em frases evocando Bakunin e Machajski, um trabalhador anarquista estimulou os delegados em uma conferência de comitês de fábrica de Petrogrado a iniciar imediatamente uma greve geral. Não existem “leis da história” para segurar o povo, ele declarou, nem estágios revolucionários pré-determinados, como os Social-Democratas afirmam. Os discípulos de Marx — tanto mencheviques quanto bolcheviques — estariam iludindo a classe trabalhadora com “promessas de um Reino de Deus na Terra daqui a séculos”. Não haveria motivo para esperar, ele clamou. “Os trabalhadores devem exercer a ação direta — não depois de mais séculos de um desenvolvimento histórico doloroso, mas imediatamente! Viva o levante dos escravos e a igualdade de renda!” Em um encontro de um comitê de fábrica no mês seguinte, outro anarquista discursou em oposição à formação da Assembleia Constituinte, sustentando que esta seria certamente monopolizada por “capitalistas e intelectuais”. “Os intelectuais”, ele alertou, “de modo algum podem representar os interesses dos trabalhadores. Eles sabem como nos manipular, e eles irão nos trair. Os trabalhadores, ele reiterou, apenas triunfarão pelo ‘combate direto’ com os seus opressores”.

Quando Machajski retornou à Rússia em 1917, ele não se esforçou para canalizar estes sentimentos em um movimento coerente. Seus dias de auge haviam passado com a Revolução de 1905, e agora ele estava prematuramente velho e cansado. Após a Revolução de Outubro, ele obteve um trabalho não-político com o governo Soviético, servindo como editor técnico da publicação Narodnoye Khozyaistvo (depois renomeada para Sotsialisticheskoye Khozyaistvo), o órgão do Supremo Conselho Econômico. Ele continuou, contudo, extremamente crítico do marxismo e seus adeptos. No verão de 1918, ele publicou uma única edição de um jornal chamado Rabochaya revolyutsiya, no qual ele criticou os bolcheviques por não terem ordenado a total expropriação da burguesia e por não terem melhorado a situação econômica da classe trabalhadora. Após a Revolução de Fevereiro, escreveu Machajski, os trabalhadores receberam um aumento salarial e uma jornada de 8 horas, mas após Outubro, suas condições materiais não foram melhoradas “nem um pouco”. A insurreição bolchevique, ele afirmou, foi nada além que “uma contrarrevolução dos intelectuais”. O poder político foi tomado pelos discípulos de Marx: “a pequena burguesia e a intelligentsia… os possuidores do conhecimento necessário para a organização e administração de toda a vida no país”. E os marxistas, de acordo com o gospel religioso do determinismo econômico de seu profeta, escolheram preservar a ordem burguesa, limitando-se apenas à “preparar” os trabalhadores manuais para o paraíso futuro. Machajski sugeria à classe trabalhadora pressionar o governo Soviético, a expropriar as suas fábricas, equalizar os rendimentos e oportunidade educacional, e providenciar trabalho para os desempregados. Ainda que desapontado com o novo regime, Machajski o aceitou de má vontade, pelo menos por enquanto. Qualquer tentativa de derrubar o governo, ele disse, beneficiaria apenas os brancos (tsaristas), que eram um mal maior do que os bolcheviques.

Machajski permaneceu trabalhando em seu posto editorial até a sua morte por ataque cardíaco em fevereiro de 1926, com a idade de 60 anos.

Notas editoriais:

[1] O patronímico Machajski – pronuncia-se “marráisqui” – encontra-se grafado como em polonês. Existe também a grafia francesa “Makhaïski” popularizada no Brasil a partir da coletânea Marxismo heterodoxo, organizada por Maurício Tragtenberg, mas optamos por manter o original polonês.

[2] Umstvennyy rabochiy traduz-se ao pé da letra como “trabalho mental” mas a coletânea Marxismo heterodoxo, em sua nota biográfica sobre Machajski, traduz o título como “Trabalhador intelectual”.

Traduzido por Fábio Belucci a partir do original disponível neste link. Este artigo faz parte do esforço coletivo de traduções do centenário da Revolução Russa mobilizado pelo Passa Palavra. Veja aqui a lista de textos e o chamado para participação.


Comentários 3

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      abr 20, 2017

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      Ótimo texto!

      Revela de forma contundente os dilemas da intelligentsia russa. Nikolai Mikhailovski, por exemplo, confessava: “A gente se deu conta de que nossa consciência universal só podia ser alcançada a custa do prolongado sofrimento do povo. Somos devedores do povo e essa dívida pesa sobre nossa consciência.” No entanto, povo para Mikhailovski significava imediatamente o camponês russo, o mujique. Herdeiro da tradição que nos anos setenta do XIX lançou a campanha “ir ao povo”, Mikhailovski via nas aldeias russa a possibilidade de regeneração da sociedade.

      Já Machajski, pelo menos na forma que aparece no texto de Avrich, parece muito preocupado com o trabalhador da cidade. Assim, embora tenha uma posição anti-intelectualista, Machajski padece dos vícios da “classe” que tentou criticar. O “economicismo” numa sociedade majoritariamente camponesa (censo de 1913 fala em aproximadamente 76% de camponeses) significa dialogar com uma parte minoritária dos trabalhadores e algo demasiadamente “ocidental”.

      Tendo isso em vista, ele deixa de explicar o central no fracasso da Revolução Russa, ou seja, a manutenção dos camponeses na posição secular de oposição ao Estado Autocrático.

    • Para além do paradoxo

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      abr 20, 2017

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      Não entendi a lógica do autor desse texto, ele atribui ao marxismo uma essência burocrática, que em Marx isso está dado, que para Marx os intelectuais serão a futura elite da sociedade do futuro, mas ele só cita as interpretações de Bakunin e do tal Machajski. Aonde isso encontra-se em Marx? A única passagem em que Marx é citado é justamente pra dizer o contrário daquilo que ele é acusado. A acusação apresenta um marxismo estático, essencialista e a-histórico, nunca a crítica é apontada em suas contradições e não se tem nenhuma preocupação em provar aquilo que é afirmado. O mais preocupante dessas perspectivas é da onde vem, quais são as referencias que reforçam a analise, será possível fazer uma crítica que tenha por objetivo combater as elites a partir de um ponto de vista das elites? Qual a diferença das elites burocráticas da industria para as elites políticas secretas que irão se apossar de uma estado maior, concentrando a violência em suas mãos? Ser contrário a Estado significa que o Estado somo nós? Será uma ditadura coletiva, com seus comites de salvação compostos pelas forças naturais de sinceros socialistas a única solução para combater a intelligentzia? Oras, a libertação da classe trabalhadora não deve ser tarefa dos próprios trabalhadores? Combater uma já pré-concebida elite com uma outra elite(mesmo que invisível)? E qual o problema dos anarquistas colocarem a prova em uma autocrítica o autoritarismo de suas posições? O autor desconhece as concepções de Bakunin e seus fundos falsos ou é pura dissimulação? A respeito da perspectiva das elites socialistas e da consciência que vem de fora, muito marcante no bolchevismo, se enquadra mais do pensamento político de Bakunin do que de Marx. O fracasso das revolução russa e outras durante o século XX foi por causa da ditadura do proletariado sobre as bases de uma democracia proletária(que encontra-se no pensamento político do Marx e do Engels) ou foi pela ditadura coletiva dos grandes revolucionários dos partidos, que sempre se apresentam de forma sincera e energética (que encontra-se em Bakunin)? Ruim esse texto!!

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